04 outubro, 2008

As costeletas e os sonhos sofridos

É duro viver com apenas uma verdade na vida. E ainda pior quando essa verdade é saber que não usa costeletas.

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Seus pais se conheceram na concentração da Portela no carnaval de 1986, história que sabe de cor de tanto ouvir sua mãe repetir as palavras que ouvira naquela noite e que, segundo ela, teria sido a mais bonita declaração de amor que uma mulher poderia ter ouvido de um desconhecido.

"Por você, morena, largo toda essa festa. Tu serás meu carnaval de hoje em diante". Enquanto no fundo a bateria esquentava para acompanhar o "Morfeu no carnaval: a utopia brasileira".

Dois meses depois, casaram-se. Ela grávida de dois meses.

Mesmo sob os protestos de toda a família, resolveram que o bebê seria chamado de Morfeu em lembrança ao enredo da escola que deu início a esta história de amor. O que não esperavam é que a ironia desta escolha viria vinte anos depois. E justamente em um carnaval.

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Nunca tinham visto uma coisa daquelas. A polícia rodoviária não possuia o registro de um acidente tão terrível. Bombeiros e policiais choravam como crianças diante do cenário do dia mais triste dos seus ofícios. Era um ar pesado. Um ar de sem-esperança. Até os cães que ali ajudavam pareciam compreender a seriadade do momento e agiam como verdadeiros profissionais. E foi um destes heróis de quatro patas que encontrou Morfeu.

O jovem não tinha um arranhão - um milagre naquela quarta-feira de cinzas e sangue, mas também não reagia a nenhum estímulo. Seu coma fora diagnosticado ali mesmo, sobre uma dupla faixa contínua.

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As pessoas que viam o jovem Morfeu completamente paralisado naquele leito não poderiam imaginar o que acontecia dentro da sua mente. E algo acontecia.

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O grupo de amigos queria voltar mais cedo da viagem, pois seria mais seguro. Madrugaram, arrumaram todas as coisas e deram um trote em Morfeu, que se recusava a despertar de seu sono pesado: rasparam suas costeletas! As suas costeletas cultivadas desde o seu primeiro fio de barba nascido três anos antes. Para ele não importavam as piadas e comparações ridídulas: eram as suas estimadas costeletas!

Antes disso, ele nunca havia ficado tão nervoso em sua vida. Mas o destino também conta as suas piadas. Ninguém poderia prever, mas este "mal" lhe seria a principal fonte de esperança em um futuro próximo.

Levantou da cama e foi direto para o carro, onde permaneceu calado - mas ninguém imaginava que seria por tanto tempo.

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No leito do hospital, era indiferente a todas as manifestações de carinho que recebia. Mas não fazia isso por mal, simplesmente não conseguia receber os estímulos do exterior. Estava preso em sua mente... mas isso ele sabia.

(continua... será?)