12 julho, 2008

Não eu.

"Não tive filhos, não transmiti o legado da nossa miséria".

Cem anos antes de eu nascer, Machado de Assis terminava assim o clássico Memórias Póstumas de Bras Cubas. Com isso, o autor usava a voz de um pobre defunto para chocar uma sociedade na qual era absurdamente incomum que um homem não tivesse filhos - a não ser que tivesse problemas mentais ou fosse padre.

Hoje em dia não ter herdeiros já se tornou banal. Uns resolvem não ter filhos por estética, outros por egoísmo e alguns por falta de dinheiro - e aí não importa quanto têm.

A minha "desculpa" para não querer ver uma miniatura minha correndo por aí é outra: chamo de "consciencietização". Mas também podem chamar de medo, covardia ou pré-depressão mesmo.

Lendo assim, imagino que quando Cubas diz que não trasnsmitiu "adiante o legado de NOSSA miséria", ele não se referia a uma possível característica física que passaria adiante aos seus descendentes. Não! Ele falava da miséria que assola a todos. Sua questão não era se seus filhos teriam o mesmo nariz que talvez tenha lhe rendido algum apelido colégio. Seu questionamento era se viveriam em uma sociedade onde ainda existiriam apelidos no colégio para crianças com um nariz diferente.

Em um país (ou será o mundo?) que não respeita as crianças. Onde Isabellas, Joãos Hélios e Robertos são tratados como bagagem em avião é que não quero ver uma pessoa indefesa que me faria rever minhas contas, meus planos e sonhos, que acabaria com meu "sono de pedra"- seja pelo choro, seja por outra qualquer pequena-grande preocupação...

Não quero precisar pensar que o jovem agredido porque torce para um outro time poderia ser meu filho. Não, não preciso ter uma noção exata da dor de enterrar um filho com a sua roupa de super herói antes mesmo dele ter idade para descobrir que aquilo é apenas uma fantasia . Jamais quero precisar saber como é sair da minha tribo para reconhecer o corpo carbonizado de meu rebento que precisou descansar em um banco de uma praça!

E pensar que, ainda assim, chamamos de primitivos os índios. Mas, pelo que sei, estes se agachavam para falar com as crianças para que não ficassem em uma posição de inferioridade. Isso sem falar das tribos nas quais todos os pequenos chamavam os adultos de pai. E não por não saberem ao certo quem o era de fato, mas porque isso não importava, pois todos guardavam iguais responsabilidades com aqueles que seriam o futuro da sua sociedade.

Por medo desse mundo que se desenha é que declaro que jamais serei pai!

E mantenho assim minha convicção até o dia que um ultrassom mostre os contornos daquele que me fará rever minhas contas, planos sonhos e, principalmente, convicções. E me faça, de fato, sentir que nenhuma "miséria" do mundo se compara a tristeza de um lar sem uma criança.

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